DIAS PERFEITOS

Assim, uma sucessão de “Dias Perfeitos”, “resultam apenas em um morno bem estar”.

Freud nos ensina que “o sofrer nos ameaça a partir de três lados: o próprio corpo, que fadado ao declínio e à dissolução, não pode sequer dispensar a dor e o medo como sinais de advertência; do mundo externo que pode abater sobre nós com forças poderosíssimas, inexoráveis, destruidoras; e, por fim, das relações com outros seres humanos. O sofrimento que se origina desta fonte, nós experimentamos talvez mais dolorosamente que qualquer outro”.


E bem sabemos, por nossas análises, que quanto mais dolorosa a experiência, maior a defesa que erguemos para tentar, em vão, nos proteger.


No personagem do qual pouco sabemos, uma coisa se destaca, a ausência de palavras: o recuo em fazer laço com o Outro e ceder as palavras, ainda que haja uma demanda do colega de trabalho e sua namoradinha, de alguns daqueles que utilizam o banheiro, ele não está disposto a ceder.
Freud ainda ensina que “o deliberado isolamento, o afastamento dos demais, é a salvaguarda mais disponível contra o sofrimento que pode resultar das relações humanas.
Compreende-se, a felicidade que pode alcançar por essa via é a da quietude”.
Com isso, o propósito da satisfação não é abandonada, uma certa proteção contra o sofrimento é alcançada, pois a não satisfação daquilo que se abre mão, não é sentida tão dolorosamente quanto o laço com o outro.
Ali nos parece que algo dessa felicidade, da quietude, que embora resultante de um processo de defesa, dali o sujeito consegue extrair algum prazer e deslocar seus investimentos libidinais para outros campos mais garantidos quanto a evitação do sofrimento. É inegável seu investimento na limpeza, na ordem… banheiros cuidadosamente limpos, retratos tirados por ele, sempre de paisagens, organizados em caixas iguais, com letreiros de identificação, dispostos simetricamente. Dias iguais, sem muitas surpresas, sonhos daqueles que nos garantem continuar dormindo, sem grandes produções, daquelas que não nos acordam e mobilizam angústia, sonhos que desvelam um olhar repetido para as sombras.

Veja, aqui há algo importante, há satisfação, é isso que Freud nos ensina, essa forma de defesa não necessariamente gera sofrimento, ele não está em sofrimento, e sim, na felicidade da quietude, como os monges e eremitas. O que, como toda escolha, não é sem perdas.
Podemos nos perguntar, o que essas sombras encobrem? Uma mão de criança entrelaçada às mãos de um adulto, um olhar infantil juvenil, que em segundo momento parece ser o de sua sobrinha.
Freud ainda nos ensina que um sujeito obsessivo pode ter um certo apelo à ordem e à limpeza, como um modo de se defender do desejo, esse desconhecido que nos tira do lugar e da quietude. O sujeito faz um “amplo uso do mecanismo do deslocamento”, nesse mecanismo de defesa, o afeto ligado a algumas representações importantes, é deslocado para outras de menor valor simbólico, mas, que passam a ocupar uma posição de grande investimento na economia libidinal de um sujeito. Não à toa, o funcionário que o acompanha não consegue entender a importância que ele dá aqueles banheiros e a sua limpeza sempre perfeita, milimétrica e impecável.
A neurose obsessiva faz todo um trabalho para manter o desejo mortificado, tanto o dele quanto o do outro. Aliás, nada melhor para que o desejo do outro fique no lugar de morto do que não fazer laço com ele, não lhe conferir um lugar de investimento, não lhe direcionar uma palavra sequer.
E isso porque, com Lacan aprendemos que o encontro com o Outro é sempre traumático. O Outro é a alteridade, o encontro com a diferença, que pode abalar nossas referências identificatórias e nossas certezas, e que pode fazer a vida não caminhar de forma tão linear e sem surpresas.
Diante do desejo do Outro, convém tudo controlar, e podemos dizer, evitar para que nada saia do lugar. Se ele não dá nada, também não perde nada. Não perder e evitar ser confrontado com a falta, não se abrindo às demandas do Outro numa tentativa de neutralizar o desejo.
Eis que a surpresa da chegada inesperada de uma sobrinha abala sua quietude, ativamente conquistada. Alguma diferença se introduz, inclusive nos dando notícias da existência de uma irmã com quem há muito também não haviam palavras.
A máquina de fotografar antiga dada por ele e por ela guardada coloca em cena que esse tio tinha um lugar para ela. Afinal, todas as vezes que pensava em sair de sua mãe, era ele quem aparecia como possibilidade, já que ele e sua mãe viviam em mundos diferentes, ele lhe apontava a possibilidade de uma outra coisa. O que lhe pega de surpresa e, pela primeira vez ele olha no visor da câmera tentando achar um ângulo para capturar a imagem de uma outra pessoa. Ali vemos que algo do universo da palavra começa a aparecer, e a felicidade da quietude começa a ceder lugar para uma satisfação que inclua o Outro.
No encontro com a irmã se esclarece um mau encontro entre pai e filho, a ponto de abandonar uma vida que parece de conforto financeiro para “lavar banheiros”, o que é visto com certo horror pela irmã. Horror que também vimos no olhar de nojo e nas palavras que lhe são direcionadas pela mãe de uma criança perdida que ele segurou com as mãos, as mesmas, que lavavam o banheiro. Quando entendemos que lavar banheiros é uma escolha, e que ele é de um universo social bem diferente daquele, vislumbramos o porque aquele olhar não o marca de forma a selar um lugar de dejeto, ele não veio de um lugar de pobreza, essa marca não toca a sua subjetividade.
Freud ainda ensina que “a um amor intenso contrapõe-se a um ódio quase tão forte”. Uma retirada tão radical a ponto de não falar, não só com o pai, mas com quase todos os outros, não é sem a dicotomia amor e ódio. Afinal, se a felicidade da quietude é uma resposta ao traumático do laço com o outro, sabemos que há algo nas sombras sobre esse enlace desenlace familiar.
Ao convidar o irmão a visitar o pai em uma casa de repouso, diz que “ele não age como antigamente”, desvelando algo que não ia bem naquela história familiar. Como em uma análise, a realidade se desdobra em camadas, não teremos a próxima camada que nos permitiria saber o que houve ali, mas sabemos que há algo desse pai, que resta doloroso para os filhos. E embora decida não vê-lo, abraça sua irmã calorosamente. Afeto que faz sua irrupção em poucos momentos, antes, diante da mulher que o atende de uma forma diferente dos demais, que canta, inclusive uma música que ele ouvia, e no depois, já marcado por esse re-encontro familiar, pode ouvir e fazer trocas com o ex companheiro dessa atendente, que estando com câncer veio se despedir. Esse encontro familiar inesperado, instaura um antes e um depois, ao experimentar os efeitos da palavra, algo da sua resistência ao laço com o Outro pode cair.
Ao final, uma cena cotidiana daquelas a modo “todo dia ele faz tudo sempre igual” dá lugar a sorrisos e lágrimas, dá lugar ao afeto. Entre sorrisos e lágrimas, há a irrupção do sujeito do inconsciente, que no encontro com o Outro faz sua aparição, abrindo a possibilidade de uma diferença.
Como afirma Freud, “que o homem seja feliz, não se acha no plano da criação”, e aquilo que chamamos felicidade, vem da “satisfação repentina”, “como fenômeno episódico”. Assim, uma sucessão de “Dias Perfeitos”, “resulta apenas em um morno bem estar”.

Texto de Referência

FREUD, Sigmund. (1930/2010). O mal-estar na civilização. In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das letras, v.18.

2 comentários em “DIAS PERFEITOS”

  1. Muito bom! Ótimas colocações. Esse filme me deixou bastante intrigada, inclusive sugeri para alguns colegas para que possamos conversar sobre as nossas impressões, achei muito interessante essa perspectiva, e compartilhei com eles também :))

    1. Olá Maria! Fico feliz com seu comentário, e que tenha gostado do texto e dividido com outros colegas, o objetivo do site é esse mesmo, que possamos trocar e seguir na transmissão da psicanálise! Seja bem vinda!

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