A CRIANÇA E O LUTO

A CRIANÇA E O LUTO: AVIVÊNCIA DA MORTE NA INFÂNCIA

O presente artigo aborda os possíveis efeitos da morte para uma criança. O luto é exatamente essa produção árdua de retorno aos traços que ligam o sujeito a um determinado objeto, até que ele possa incorporá-los, podendo se ver livre para investir em novos objetos. Contudo,que o luto não é uma reação automática diante da perda de um objeto, ele pode não acontecer, e inclusive ser dificultado por estratégias como o silenciamento diante da morte, como omitir o fato para a criança. Um luto não vivido não é sem efeitos, podendo produzir ainda mais sofrimento, e diversos sintomas, como depressões, fobias, e falta de investimento em si e na vida.


“O texto completo está disponível no link abaixo. Trata-se de um trabalho em coautoria de Ilana Cortes e Nilda Martins Sirelli, intitulado A criança e o luto: a vivência da morte na infância, publicado pela UNIRIO na revista Psicanálise & Barroco em revista, v. 14, n. 2, dezembro de 2016.”

Freud esclarece que o humano nasce no desamparo radical, sendo a espécie que está mais despreparada para a vida, despreparo neurológico, motor e simbólico. O desamparo é tal, que se não for tomado por um semelhante que o acolha e cuide, o bebê humano está fadado a morte. Tal fato é fecundo de consequências, pois é por seu semelhante que o humano apreende a conhecer-se.
Com Freud vemos que a mãe3é o primeiro objeto de amor de toda criança, pois é por meio de seus cuidados que o corpo do bebê é erotizado, e começa a ser experimentado como possível fonte de prazer e de laço com o Outro. Ao mesmo tempo, por ela o bebê recebe uma série de estimulações, inclusive simbólicas, emergindo possibilidades de nomeação e reconhecimento. O pai, como apontado por Freud, é aquele que tem por função barrar a relação do bebê com sua mãe, evidenciando que o desejo materno não se restringe apenas a criança, mas está para além dela. Função importantíssima, pois, como nota Lacan, é assim que o circuito não se fecha sobre a criança, e ela é lançada a um movimento de busca e reconhecimentos fora desse laço.
O pai se torna um objeto de identificação, pois a criança busca nele aquilo que supostamente lhe falta, mas que a mãedeseja. Os traços do pai tornar-se vias de ancoramento para a subjetividade infantil.
É imprescindível salientar que Freud (1914/2010) explica o fenômeno da identificação pela incorporação canibalística. Em tribos canibais não se come qualquer semelhante, mas apenas aqueles que têm atributos aos quais eu gostaria de ter em mim, ou seja, eu me alimento do outro para que sua força, sua coragem, etc. agora façam parte do que sou, sendo integrado em mim. Assim, a identificação em Freud não é uma simples imitação, ao me identificar com um outro eu tomo seus traços para mim, os incorporo, e agora sou aquilo que acolhi do outro (como no caso do nome próprio).
Tais premissas ganham tanta importância, pois daqui começamos a depreender a função dos pais no universo infantil, para daí pensarmos: quais os possíveis efeitos da morte desses genitores para a criança? E mais, como poderia ser vivenciado o luto na infância?

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